Texto publicado originalmente em 29 de abril de 2025 na newsletter Mensagem na Garrafa.
Um dos maiores desafios que enfrento no gerenciamento do lar é me alimentar bem durante os dias úteis, principalmente após o expediente. Frequentemente eu e meu marido ficamos cansados demais para preparar alguma coisa saudável. Soma-se à isso as diversas falhas em nosso planejamento semanal, e o resultado é que acabamos por pedir fast food mais vezes do que gostaríamos de admitir.
Desnecessário dizer o quanto isso é oneroso e prejudicial para a saúde. Por isso, este ano alguns dos meus objetivos são incluir mais vegetais em minha alimentação e cozinhar com mais frequência. Fiz algumas contas e concluí que seria possível realizar uma vontade antiga, que era assinar um serviço de entrega em domicílio de uma cesta de produtos orgânicos. Ela seria a catalizadora das mudanças que gostaria de fazer na minha rotina alimentar, além de estar alinhada com um princípio que é muito importante para mim, a sustentabilidade.
A experiência tem sido bastante positiva, e neste texto gostaria de compartilhar com vocês meus principais desafios e aprendizados, contar um pouco sobre a Comunidade que Sustenta Agricultura (CSA) responsável pela cesta que assino, a Confraria da Horta e trazer algumas reflexões.
A prática agroecológica da CSA Confraria da Horta
A Confraria da Horta é uma parceria entre agricultores do município de Florestal (MG) e região, comprometidos com a produção de alimentos no sistema de agroflorestas com foco no cultivo de frutíferas, leguminosas, hortaliças, plantas alimentícias não convencionais (PANCs) , ervas medicinais e temperos. A Confraria entrega em Belo Horizonte semanalmente cestas com sete a 10 itens diversificados, dependendo das condições de produção. A CSA também promove oficinas gratuitas de agroecologia para agricultores e escolas da região.
Agroecologia é um modelo de produção que integra conceitos de Ecologia, saberes tradicionais e ações sociais coletivas na promoção de uma agricultura sustentável. Como disciplina, surgiu em resposta aos diversos danos ambientais observados após a chamada “revolução verde”, que implementou o uso intensivo de maquinários pesados, agrotóxicos e fertilizantes sintéticos para a produção em larga escala. Entretanto, a agroecologia é uma prática ancestral, exercida há milhares de anos por povos tradicionais. Entre as diversas práticas que compreende estão a rotação de culturas, manejo sustentável de recursos hídricos e resíduos, não utilização de agrotóxicos, e as agroflorestas (1, 2, 3).
“(A agroecologia) promove uma abordagem socialmente justa, ética, inclusiva e economicamente viável, priorizando especialmente a produção familiar e camponesa, bem como suas formas organizacionais.” – Site Raízes do Campo
No sistema agroflorestal, árvores e produtos agrícolas são plantados em uma mesma área. Os produtores garantem sua renda de curto e médio prazo com o cultivo de alimentos e de longo prazo com a madeira; enquanto a prática proporciona a conservação da qualidade do solo e da água, o controle natural de pragas, conservação das espécies endêmicas e resiliência frente à eventos climáticos extremos (4). Já os consumidores recebem alimentos diversificados e livres de agrotóxicos (3).
Para saber mais sobre a Confraria e suas agroflorestas, visite o perfil do instagram @csaconfrariadahorta.
A experiência até agora
Posso dizer que atingi meus objetivos aderindo ao serviço. Minha alimentação realmente ficou mais saudável, pois sempre tenho legumes e verduras para todas as refeições. Gosto de cozinhar e a cesta tem me incentivado a aprender receitas novas; consulto bastante o site da chef Rita Lobo e minha mãe me dá várias dicas. Entre meus pratos favoritos até agora estão o frango com quiabo e o bolo de banana.
Além disso, a Confraria tem um grupo no whatsapp em que os responsáveis compartilham vídeos e fotos do cultivo que aquecem muito o coração! Sinto que tudo é feito com amor, e de certa forma me sinto parte do processo. Estou emocionalmente investida em cada semente que vejo ser plantada e em cada um dos brotinhos que emergem da terra.
Outro aspecto positivo é que a cesta consiste em produtos sazonais, o que me aproxima dos ciclos da natureza, que é um aspecto importante da minha prática espiritual.
Entretanto, dois grandes desafios são higienizar e armazenar corretamente os alimentos, principalmente as hortaliças. A cesta é entregue por volta das 20:30h, quando já estou muito cansada, e raramente consigo acomodar tudo apropriadamente, uma vez que esta é uma atividade demorada. Levo de 1h- 1:30 para lidar com as hortaliças (incluindo levar eventuais lesminhas viajantes ao jardim), que demandam certa urgência. Os legumes são mais fáceis de manipular e consigo distribuir o cuidado ao longo da semana.
Sistematizando minha rotina culinária
Levei algumas semanas para entender meu padrão de consumo e preparo, e depois de muitos erros consegui sistematizar uma rotina culinária que funciona para mim. Ela leva em consideração minha disponibilidade de tempo, algumas limitações da minha neurodivergência e minha rede de apoio.
Cozinhar dá trabalho e vai muito além de simplesmente juntar ingredientes em uma panela. É preciso planejar o menu, fazer compras, cozinhar e limpar a bagunça. Por isso, se mais de uma pessoa vai comer, é justo compartilhar a responsabilidade. Aqui em casa eu e meu marido dividimos as tarefas;
Para o processo ficar menos cansativo, distribuímos as etapas ao longo da semana. De quarta à sexta seleciono receitas que utilizam os itens recebidos, e compramos os demais ingredientes (prefiro fazer compras online para entregar em casa, pois ir ao supermercado é um pesadelo sensorial). Cozinhamos apenas aos finais de semana e priorizo receitas de prato único. Por causa da rigidez cognitiva eu tenho muita dificuldade em alternar tarefas, já tentei fazer mais de um prato por vez e o resultado foi uma bela de uma crise;
Higienizar e armazenar os alimentos corretamente assim que eles chegam é o passo mais importante para conservá-los por tempo suficiente até que possam ser consumidos. Para lidar com hortaliças, segui as dicas da Rita Lobo;
Sempre que possível congelo alimentos, como algumas frutas e legumes. A Rita também ensina algumas formas;
O trabalho que dá para cozinhar uma única porção é o mesmo que dá para cozinhar várias, então a cada 15 dias, aproximadamente, reservamos de 3-4 horas para montar várias marmitas, que congelamos e consumimos ao longo da semana;
Às vezes acumulo mais alimentos do que irei consumir, ou recebo na cesta algum item que não me agrada muito. Para não desperdiçar, troco-os com meus pais.
Algumas reflexões
Acredito que a abordagem responsável dos temas dessa edição pede uma reflexão sobre nosso cenário político e socioeconômico, mesmo que breve. Afinal, ter uma alimentação nutritiva não é apenas uma escolha individual. Nas palavras da Organização Mundial de Saúde:
“Dietas evoluem ao longo do tempo, sendo influenciadas por muitos fatores sociais e econômicos que interagem de forma complexa para moldar os padrões individuais de alimentação. Esses fatores incluem renda, preço dos alimentos (que afeta a disponibilidade e acessibilidade a comidas saudáveis), preferências individuais e crenças, tradições culturais, aspectos geográficos e ambientais (incluindo mudanças climáticas). Assim, a promoção de um ambiente alimentar saudável – incluindo sistemas que promovem uma dieta diversificada e balanceada – requer o envolvimento de múltiplos setores e interesses, incluindo governos e setores públicos e privados” (5) (tradução livre).
No país que mais consome agrotóxicos no mundo (6), ter na mesa produtos orgânicos é um grande privilégio. Em 2023, 8,7 milhões de brasileiros ainda viviam em situação de fome (7), e levantamento do governo federal realizado em 91 cidades com mais de 300 mil habitantes revelou que, em 2024, nesses municípios cerca de 40 milhões de pessoas viviam em pântanos e desertos alimentares (locais onde predominam a venda de alimentos ultraprocessados e regiões em que o acesso a alimentos in natura é restrito ou inexistente, respectivamente) (8).
Mesmo que se tenha acesso a alimentos nutritivos, é fácil trocar a culinária demorada e cansativa por fast food, principalmente quando se perde algumas horas no trânsito e ainda há tarefas domésticas por fazer. Segundo o IBGE, em 2019 o tempo médio de deslocamento de casa para o trabalho (ida e volta) em áreas urbanas era de 4,9 horas semanais, sendo a média de pessoas pretas (5,6 horas) superior à de pardas e brancas (4,9 e 4,4, respectivamente) (9). Em 2022, 85,4% dos brasileiros com idade igual ou superior a 14 anos desempenhavam afazeres domésticos. 79,2% dos homens entrevistados realizavam alguma atividade, enquanto entre mulheres a proporção foi de 91,3%. Em média, mulheres dedicavam 9,6 horas a mais que homens nos cuidados domésticos por semana (10).
Por fim, é crucial e urgente repensar a forma criminosa como o agronegócio tem sido implementado no Brasil (6, 11, 12, 13), e ter a consciência de que já existem outros modelos capazes de causar menos impactos ambientais e sociais, ao mesmo tempo em que geram riqueza para comunidades e para o país (14, 15). Uma transição completa do modelo atual para alternativas agroecológicas requer ainda mais pesquisas e investimentos dos setores públicos e privados (15). Mas é importante termos ciência de que a mudança é possível, para que possamos escolher representantes políticos que estejam comprometidos com ela.
Ufa, chegamos ao fim! Obrigada por sua leitura! Você já conhecia o conceito de agroecologia? Tem dicas de rotina culinária para compartilhar? Seu comentário é muito bem vindo 🙂
Referências bibliográficas
FERRAZ, J.M.G. Agroecologia. EMBRAPA, Agência de Informação Tecnológica, EMBRAPA, 2021. Acesso em: 22 abr. 2025.
Agroecologia: o que é, características e importância. Raízes do Campo, 2023. Acesso em: 22 abr. 2025.
Dia Nacional da Agroecologia: um modelo de produção e uma escolha de vida. Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, 2024. Acesso em: 22 abr. 2025.
Agroflorestas e soluções baseadas na natureza. The Nature Conservancy. Acesso em: 22 abr. 2025.
Healthy diet. World Health Organization, 2020. Acesso em: 22 abr. 2025.
Exposição a agrotóxicos ameaça saúde de trabalhadoras e trabalhadores rurais. Tribunal Superior do Trabalho, 2024. Acesso em: 22 abr. 2025
“2025 será o ano de tirar novamente o Brasil do mapa da fome”, projeta Wellington Dias. Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, 2025. Acesso em: 22 abr. 2025.
Fala MDS: o que são e quais são os impactos causados pelos pântanos e desertos alimentares. Agência Gov, 2025. Acesso em: 22 abr. 2025.
Deslocamento para o trabalho. Educa IBGE. Acesso em: 22 abr. 2025.
NERY, C., BRITTO, V. Em 2022, mulheres dedicaram 9,6 horas por semana a mais do que os homens aos afazeres domésticos ou ao cuidado de pessoas. Agência de Notícias IBGE, 2023. Acesso em: 22 abr. 2025.
GOMES, C.M. Impactos da expansão do agronegócio brasileiro na conservação dos recursos naturais. Cadernos Do Leste, 19(19), 2019.Acesso em: 22 abr. 2025.
PESSOA, V.M; RIGOTTO, R.M. Agronegócio: geração de desigualdades sociais, impactos no modo de vida e novas necessidades de saúde nos trabalhadores rurais. Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, v. 37 (125), 2012. Acesso em: 22 abr. 2025.
VILLAR, R.. Brasil incendiário: uma nação refém do agronegócio. Greenpeace Brasil, 2024. Acesso em: 22 abr. 2025.
BARROSO, M. Impactos das mudanças climáticas na produção agrícola. The Nature Conservancy, 2024. Acesso em: 22 abr. 2025.
TITTONEL, P. et al. Agroecology in large scale farming – a reasearch agenda. Frontiers in Sustainable Food Systems, v. 4, 2020. Acesso em: 22 abr. 2025.


