Texto publicado originalmente em 23 de setembro de 2025, na newsletter Mensagem na Garrafa.
Amizades da adolescência
Treino de karatê
Aulas de alemão
Meu ateliê de arte
Minha carreira como cientista
Incontáveis projetos criativos…
Alguns interesses e algumas pessoas saíram da minha vida aos poucos, como uma brisa gentil que varre as folhas caídas quando a primavera chega ao fim. Outros foram rompimentos deliberados, feitos depois de muita consideração e com o coração pesado.
Todas as rupturas deixam um gosto amargo, como se houvéssemos quebrado a promessa de sermos os mesmos e amarmos as mesmas coisas desde seu início até que a morte nos separe. Como lidar com uma quase conquista, quase diploma, quase para sempre? Uma história não finalizada, que deixa várias pontas soltas abertas à interpretação, ainda vale a pena ser contada?
Existe uma linha de chegada?
Talvez a completude seja poder olhar nossa trajetória em retrospecto e concluir que sempre fomos fieis a nós mesmos.
Da minha parte, demorei a entender que cada renúncia é uma troca de pele; é preciso deixar algumas coisas para trás para poder crescer. Mas isso não significa que o que passou não teve seu valor.
Não me tornei fluente em alemão, mas sou capaz de fazer pedidos em restaurantes e ler mensagens de amor escritas nos muros de Berlim. Cada rascunho abandonado contribuiu para aprimorar meu traço, e uma década de carreira acadêmica me ensinou a questionar a realidade e enxergar o milagre que é a evolução da vida na Terra. Sou tudo o que deixei pelo caminho.
Além disso, quem foi que disse que não é possível retomar interesses e amizades do passado? Enquanto houver vida e houver vontade, existe a chance de recomeçar.
E quando minha vida chegar ao fim, os vermes que roerão minha carne não dirão com desprezo “argh! Sie sprach kein Deutsch!” *. Pelo contrário, tenho certeza que me receberão de bom grado! E assim, todos os meus capítulos inacabados serão fragmentados em historinhas que nutrirão a terra em primaveras que estão por vir.
*”Eca, essa baranga não fala alemão!”


