Sobre chegar aos 30 anos

Quando esta cartinha chegar na sua caixa de entrada, estarei completando 34 anos. Não sou muito de comemorar a data, geralmente ela passava batido ou, se houvesse festa, era por insistência dos meus pais. Mas tenho me empenhado em quebrar velhos padrões, e é isso que me traz ao tema da reflexão de hoje.

A plataforma onde escrevo e envio minha newsletter tem um espaço que é uma espécie de twitter, o Notes, cujo algoritmo duvidoso frequentemente me tira da bolha. Ele vive me trazendo notas que não tem muito a ver comigo – e isso inclui os desabafos de adolescentes no auge do ensino médio. E algo que me chamou muito a atenção é o medo que muitos deles têm de serem infelizes no futuro. São muitas as notas angustiadas pelo fim da fase escolar e o receio de como será a vida universitária.

Eu acho esses comentários muito curiosos porque nessa idade o que eu mais queria era que ela acabasse. Minha adolescência não foi um período legal. Eu me sentia desesperadamente solitária e deslocada de qualquer círculo de amizades, tinha a auto-estima baixíssima e vivia sob a enorme pressão de tirar notas boas e passar no vestibular. Tinha uma vontade transbordante de conhecer o mundo que não parecia ser possível realizar. Era como estar presa em um pesadelo.

E, mesmo ansiosa e deprimida, o que eu mais escutava de pessoas mais velhas era que eu deveria aproveitar aquela fase, porque seria a melhor da minha vida e eu iria sentir saudades.

E assim eu pensava: se isso é o melhor que a vida pode dar, será que ela vale mesmo a pena?

E tem valido a pena.

O tempo me trouxe a realização de todos os meus sonhos, e mais alguns que eu nem ousava imaginar. A cada ano que passa aprendo mais sobre mim mesma e vivo de forma mais autêntica. Hoje me sinto mais feliz, mais bonita e em paz.

“Envelhecer é um processo extraordinário em que você se torna a pessoa que sempre deveria ter sido.” – David Bowie

Os meus trinta anos, especificamente, tem sido sobre transformações. Estou em um processo de mergulho nas minhas próprias sombras que está sendo bastante revelador, assustador, mas também libertador.

Para não dizer que tudo são flores, eu realmente acreditava que quando chegasse aos trinta minha vida já estaria “resolvida”: carreira consolidada, casa e carro próprios, certezas ao tomar decisões. Não poderia estar mais enganada. Aos 31 fiz transição de carreira e hoje o meu cargo é júnior em uma empresa cujo CEO é quase uma década mais novo que eu, o carro que eu dirijo é da minha mãe, minha casa é do meu marido e eu ainda não decidi se quero gestar um filho. Mas paciência, né. O que a vida quer da gente não é convicção, é coragem, como já dizia Guimarães Rosa.

Vale ressaltar que essas aparentes derrotas não chegam a ser um problema, porque mudei muito a minha definição de sucesso ao adquirir mais vivência. Se antes eu queria ser uma girl boss independente, hoje sinto que minha verdadeira riqueza é poder estar em locais em que posso ser gentil e criativa sem ser ridicularizada ou explorada por isso. É ter uma vida confortável e rodeada de pessoas em que posso confiar. Eu não preciso conquistar tudo sozinha.

Um outro aspecto digno de nota é que minhas costas e meu joelho realmente começaram a doer. Então se eu puder dar um único conselho para você que ainda está na casa dos vinte anos é: saia do sedentarismo o quanto antes.

Posto isso, eu diria que o saldo geral é positivo. Envelhecer com saúde e dignidade é uma dádiva pela qual sou grata. E quero acreditar que o melhor ainda está por vir.

“E vou viver as coisas novas que também são boas
O amor, humor das praças
Cheias de pessoas
Agora eu quero tudo, tudo outra vez”

– Belchior

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