Histórias não contadas da Serra do Cipó, MG

Texto publicado originalmente  em 12 de agosto de 2025 na newsletter Mensagem na Garrafa

Nas últimas férias eu e meu marido fomos descansar na Serra do Cipó, distrito de Santana do Riacho, que fica a aproximadamente 2h de distância de Belo Horizonte. Além de passear pelas lojinhas e restaurantes do centrinho, decidimos fazer uma das trilhas do Parque Nacional.

Artesanatos no centrinho.
Portaria do Retiro.

O Parque possui três portarias, duas das quais estavam fechadas na ocasião de nossa visita. Então em uma manhã fomos de carro até a portaria do Retiro, uma modesta cabana de madeira. Lá recebemos um mapa das atrações e fomos informados que a cachoeira mais próxima, a do Gavião, ficava uma distância de 7km, cerca de 1:30h de caminhada, em uma trilha considerada de dificuldade média.

Topamos o desafio e começamos a trilha a passos lentos, pois bióloga que sou não poderia perder a oportunidade de registrar todos os detalhes da paisagem, relembrando das aulas de Botânica sobre as adaptações das plantas do cerrado ao solo ferruginoso e ao período de seca do inverno. As pequenas árvores retorcidas e as palmeiras contrastavam contra o intenso azul do céu, em um daqueles dias de sol quente e vento frio. O silêncio do parque entrecortado apenas pelo barulho de água corrente em algum lugar da mata e o farfalhar da vegetação – olhos atentos ao menor sinal de movimento; quem sabe teríamos a sorte de avistar algum animal?

Grande foi a nossa surpresa quando os primeiros animais que encontramos foram cachorros, cavalos e vacas de moradores do Parque. Eu não sabia que era permitido habitar dentro de áreas protegidas, tampouco qual a história daquelas famílias que estavam ali, e de muitas outras cujas casas estavam abandonadas ao longo do caminho.

Doguinho de pastoreio no Parque Nacional da Serra do Cipó.

Foi fazendo uma pesquisa para redigir esse texto é que descobri que a área que se tornou Parque Nacional em 1984 já era ocupada há gerações antes do decreto fundador. Enquanto algumas famílias foram indenizadas pela desapropriação, muitas outras foram removidas com violência pela polícia, forçadas a deixar seus pertences para trás. Após 25 anos de litígio, o Plano de Manejo do Parque delimitou Zonas de Ocupação Temporária para os moradores remanescentes, visando “evitar maior degradação das áreas ainda com moradores e disciplinar as práticas de subsistência dos moradores até que seja possível a completa regularização fundiária”. Entretanto, as rígidas regras vigentes dentro dessas zonas interferem diretamente com o modo de vida desempenhado por décadas pelas populações tradicionais. Muitas delas se viram impedidas de continuar suas práticas de subsistência, e assim também deixaram suas casas. Foi permitido apenas aos proprietários idosos ou portadores de laudos de doenças mentais a moradia vitalícia dentro do perímetro do Parque (1, 2).

Dá um sentimento ruim assimilar que um lugar que traz tanta paz carrega uma história tão indignante. Mas sigamos.

O grau de dificuldade do caminho logo aumentou, tivemos que pular pedras em alguns riachos e procurar entre muitas outras degraus seguros para escalada. Sou baixinha e tenho as pernas curtas, e por diversas vezes meu marido teve que me puxar porque os obstáculos eram altos demais para mim.

Em determinado momento a matinha deu lugar aos campos rupestres. O sol nos castigava e os gaviões planavam baixo, o rugido do vento entrecortado por seus guinchos. As rochas ao redor pareciam nos observar de cima. Senti como se uma força antiga nos envolvesse e nos repreendesse. De repente fiquei com vergonha de não ter pedido licença para entrar.

Mais à frente encontramos um morador idoso capinando o jardim. Ele puxou conversa, nos contou que o próximo riacho levava o nome de sua mãe, Dona Odilia, e que o seguinte era onde as mulheres lavavam panelas. Ele nos pediu uma contribuição financeira, mas não tínhamos dinheiro em espécie. Continuamos.

 

Vários trilheiros nos ultrapassaram e parecia que a tal cachoeira não passava de um delírio. Mas se fosse um sonho, certamente não seria eu a sonhá-lo, pois nunca seria capaz de conjurar na minha imaginação um cenário tão lindo quanto aquele que se abria à nossa frente! Flores e riachos emoldurados por paredões rochosos, o canto das aves e o ruído da correnteza…Como é mágico viver no planeta Terra!

O som de água corrente ficou mais alto e enfim a avistamos! Escondida atrás de um cinturão de pedras estava a cachoeira do Gavião. De dificílimo acesso, não conseguimos colocar os pés na água, pois já estávamos um tantinho machucados e chegar mais perto era um pouco perigoso. Mas foi bom nos sentarmos e admirar a paisagem.

Cachoeira do Gavião.

Só os deuses sabem como conseguimos voltar. Meu tênis rasgou, meus pés doíam muito e eu me sentia fisicamente esgotada e com enxaqueca, e meu marido torceu o pulso – este foi nosso tributo aos guardiões da Serra. Foi uma lição inesperada sobre limites, em que descobri mais um só depois que passei dele.

Na placa da portaria lê-se: “Deixe tudo como está: plantas, animais e pedras”. Este é um lembrete de que somos meros expectadores da Serra e suas histórias – as que estão sendo esquecidas nas casas abandonadas, e aquelas que ainda pulsam nas entranhas das rochas.

Adoraria continuar a conversa nos comentários! Um abraço e até a próxima.

PS.: todas as fotos são de minha autoria. Se for usá-las para algum propósito, não se esqueça de me atribuir os créditos 🙂

Referências bibliográficas

  1. Luta das famílias expropriadas pelo Parque Nacional da Serra do CipóObservatório dos Conflitos Ambientais de Minas Gerais, 2014. Disponível online.

  2. LOURENÇO, L. Moradores da serra do Cipó não aceitam desapropriaçãoJornal O Tempo, caderno Cidades, publicado em 06 de agosto de 2013. Disponível online.

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