O uso de símbolos pessoais em criações autorais – um estudo de caso

Texto publicado originalmente em 25/02/2025 na newsletter Mensagem na Garrafa.

Você já notou como a motivação por trás de uma obra impacta no processo criativo e no seu resultado final? Esta reflexão, proposta por Franco Antonio na newsletter Olhar Criativo, me fez pensar bastante sobre meus próprios projetos. Durante o período em que tive um Ateliê de criações manuais, fiz toda sorte de encomendas – de retratos de pets a planners personalizados – mas o que eu mais gostava de fazer era mesmo “inventar moda” com encadernações de técnica mista. É bem verdade que ninguém comprava minhas ideias (literalmente), mas o exercício de criatividade por si só era muito satisfatório.

Criar para si mesmo permite mais experimentação, menos medo de errar e também escolher elementos com simbolismo pessoal, o que para mim é bastante terapêutico. Para exemplificar esses pontos, gostaria de compartilhar as referências que usei para a confecção de um dos meus cadernos favoritos, inspirado na poesia O Corvo, de Edgar Allan Poe.

Caderno Nevermore.

A motivação e sua influência no design

Costura copta pareada. Processo e costura finalizada.

Queria praticar um tipo de costura de miolo (o interior do caderno) chamada copta pareada, que forma uma espécie de trancinha quando vista lateralmente. Fica tão bonito que achei até que seria interessante deixar a lombada exposta. E se é para deixar exposta, por que não escolher uma cor mais interessante que branco para as páginas em evidência?

Além disso queria experimentar criar para a capa uma colagem digital, técnica que gosto bastante. A imagem seria impressa, o que implicaria em alguns cuidados adicionais ao fazer o acabamento da encadernação, uma vez que as bordas de um papel tendem a se desgastar rapidamente . Por isso, para as bordas externas selecionei cantoneiras de metal, e para as boras internas, um reforço em fita de cetim.

Essa decisão também afetaria as dimensões do caderno: o tamanho máximo de impressão da minha máquina é A4, o que significa que o caderno deveria ser menor que 29 cm x 21 cm (precisamos de uma área “de sobra” para que, ao colar o papel na capa, ainda reste material suficiente para dobrar para dentro e fazer o acabamento). Optei por um A5 porque já havia configurações de impressão e gabaritos prontos para esse tamanho, o que sempre facilita o trabalho.

A nostalgia como inspiração

Já no início do projeto eu sabia que queria um miolo preto. Desde criança sou fascinada por uma estética mais sombria e alternativa – talvez tenha a ver com ter crescido assistindo à Família Addams e aos filmes do Tim Burton, não sei ao certo. Mas o caso é que, quando tinha ali por volta dos meus 12 anos de idade, vi pela primeira vez um caderno com folhas pretas, e não tirei ele da cabeça até meus pais comprá-lo para mim.

Ainda relembrando a infância, sempre gostei muito da estética dos diários vendidos em lojas de 1,99. Para quem não viveu os anos 90, essas eram lojas de importados em que grande parte dos produtos realmente custavam R$1,99, pasmem! Lá você encontrava os mais variados produtos de baixa qualidade e gosto duvidoso, como os referidos diários. Há quem diga que eles eram meio baranguinhos, mas eu amava a combinação entre flores, frases e fotos sem nexo – era muito diferente das capas dos cadernos da Tilibra, simplesmente fascinantes!

Assim, para a arte da capa decidi utilizar alguns destes elementos, mas com um toque pessoal de coesão temática.

Diários dos anos 1990. Fonte: Lojas Castorino.

Simbologia pessoal

As folhas pretas pediam um tema mais dark, e achei que poderia ser legal prestar homenagem à poesia O Corvo, de Edgar Allan Poe, autor que me é de grande estima. Nos versos, o eu lírico é atormentado de madrugada pela visita de um corvo sinistro que vem lhe trazer presságios. Caso ainda não conheça a obra, pode ler a versão original em inglês aqui, ou conferir algumas das traduções feitas para o português por Milton Amado (minha favorita), Machado de Assis ou Fernando Pessoa.

Então o fragmento de texto da colagem seria a primeira estrofe da poesia. Também precisaria de uma flor, um fundo com textura e, obviamente, a imagem de um corvo. E fazendo minhas pesquisas, tal foi minha surpresa quando descobri que magpies são aves da família dos Corvídeos!

Tenho história com as magpies. Quer dizer, nunca chegamos a interagir, mas sempre as observava na rua ou da janela do meu quarto quando morei no País de Gales (Reino Unido). No início achava-as um pouco irritantes, pois eram bem enxeridas e, quando pousavam, sempre davam uma leve derrapada no solo, meio desajeitadas. Mas logo passei a apreciar a presença desses belos e inteligentes pássaros. Só que aqui no Brasil não temos magpies. Sinto uma falta brutal de Gales, e também de observá-las da minha janela. Uma lembrança de um amor que nunca voltará – nevermore.

Para compor a atmosfera lúgubre, acrescentei uma rosa, flor que está associada a uma de minhas memórias favoritas da época do curso de Desenho Artístico. Na arte gótica, um dos muitos significados que a rosa traz é o da efemeridade da vida [1].

Veja abaixo mais algumas fotos de detalhes do caderno finalizado!

Poe, O Corvo e magpies.

Referências bibliográficas:

  1. A Guide to Rose Symbolism in Gothic Art. Disponível em <https://www.loverflorals.com/locations/a-guide-to-rose-symbolism-in-gothic-art>. Último acesso em 22/02/2025.

2 comentários em “O uso de símbolos pessoais em criações autorais – um estudo de caso”

  1. Oiii Maria!! Só queria dizer que amei demais a iniciativa e que estou salvando o blog para voltar aqui sempre e checar suas criações :’))) Ter um blog assim é 100% sua cara, eu amei muito!!! Depois conta mais como você fez (onde está hospedando o blog, inspos, esse tipo de coisa!)? Pesquisa de campo rsrsrs

    1. Cici, obrigada pela visita!! 😀 Fico feliz que gostou da minha casinha nova!! Certamente irei escrever um texto com todos os detalhes da construção do blog! Por enquanto já posso adiantar que criei o site usando um tema gratuito do wordpress.org, adquiri um domínio próprio e estou o hospedando no hostgator 🙂

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