Texto publicado originalmente em 01 de abril de 2025 na newsletter Mensagem na Garrafa.
Atualmente minha técnica de pintura favorita é a aquarela tradicional (analógica), mas nem sempre foi assim.
A aquarela é uma técnica caprichosa, que segue seu próprio curso e tempo. Quando a água encontra o papel, é impossível ter controle total das manchas que o pigmento vai formar, e isso me deixava absolutamente irada nas minhas primeiras aulas de pintura. Eu não sou uma “artistona” que dá pinceladas intuitivas e cria obras incríveis – o meu processo envolve muito planejamento, incluindo um esboço em grafite e escolha cuidadosa da paleta de cores.
Mas a água não se importa. Por mais que você conheça suas tintas e o padrão de absorção do seu papel, a água ainda irá fluir e secar em seus próprio termos; interferir apenas piora a situação. Foram muitas as ilustrações que arruinei ao tentar impor a minha vontade sobre a técnica.
A aquarela é incompatível com um planejamento rígido, e foi só depois de reconhecer minha mediocridade frente à potência da água é que entendi que a sua beleza reside aí, no acaso das manchas inesperadas.
Diferentemente de outras técnicas, a aquarela não é sobre precisão e controle. Não é sobre criar algo belo apesar da imprevisibilidade – é sobre trabalhar com ela. É sobre respeitar o tempo das coisas e entender que mudar de planos, embora desconfortável, no final do dia também pode ser uma coisa boa.
Esse aprendizado não só melhorou a qualidade das minhas pinturas, como também tornou meu processo criativo mais leve – e ouso dizer que trouxe um pouquinho mais de flexibilidade cognitiva em outras situações do meu cotidiano também (apesar de que esse ainda é um trabalho em construção).
Dicas para quem quer começar
1. Não invista logo de cara em materiais profissionais…
Com exceção dos pincéis, adquirir logo de cara materiais profissionais pode ser um desperdício de dinheiro, porque eles são muito caros e você vai precisar treinar e errar bastante antes de pegar o jeito. Acredite, um buraco se abre em sua alma toda vez que desperdiça uma folha de Hahnemühle.
O que indico para iniciantes:
Bloco A3 de papel Canson Mixed Media 300g/m³ (qualquer gramatura menor irá rasgar o papel, preste muita atenção nesse parâmetro);
Pentel Water Colours em bisnaga, 12 cores;
No mínimo 3 pinceis redondos, preferencialmente de pelo não sintético, sendo um deles do tipo filete (para detalhes), um médio e um grande.
2. …Mas tenha em mente que a qualidade do material impacta sim no resultado final
As manchas criadas em um papel 100% algodão adquirem mais nuances e são mais harmoniosas em contraste a papeis 100% celulose. Pigmentos profissionais costumam ser mais vibrantes e apresentar maior durabilidade. Estes materiais são caros (só o bloco de folhas está na faixa dos R$200,00), mas realmente agregam valor ao trabalho. Caso você queira dar esse passo, indico os materiais que tenho usado ultimamente:
Papel Aquarela Hahnemühle Expression 100% Algodão 300 g/m³;
Estojo Aquarela Pastilhas Koh-I-Noor 24 cores.
3. Considere fazer aulas presenciais
É possível aprender de forma autodidata vendo vídeos no youtube, ou mesmo em cursos online? Acredito que sim. Mas pode ser benéfico para seu desenvolvimento ter um professor literalmente ao seu lado – foi o que fez toda diferença para mim. Se você mora em Belo Horizonte (MG), recomendo demais os cursos da queridíssima Casa dos Quadrinhos.
4. Não se compare com estranhos na internet
Essa é uma dica para a vida, né? No caso o perigo aqui é criar expectativas irreais para suas primeiras pinturas. Existem diversos fatores que impactam no resultado da arte que você vê naqueles vídeos rápidos, mas que nem sempre são explicitados por seus criadores. Entre eles podemos citar o tempo de experiência do pintor, os materiais usados, quantas tentativas foram feitas até chegar no resultado mostrado, e até mesmo a edição e adição de filtros ao conteúdo. Pode parecer óbvio quando colocado dessa forma, mas eu juro pra você que uma das maiores queixas de iniciantes é a frustração por não criar algo genial já nas primeiras tentativas. Muita gente desiste de continuar praticando porque acha que a habilidade deve ser inata. Não é. Primeiro você começa, depois você melhora.
Obrigada pela leitura! Comentários são bem-vindos 🙂


