Texto publicado originalmente em 02 de setembro de 2005, na newsletter Mensagem na Garrafa.
Em 02 de setembro de 2018, assisti aos prantos e no mais absoluto horror o Museu Nacional do Rio de Janeiro ser consumido em chamas. O incêndio, que começou devido a um curto-circuito em um ar-condicionado (1), demorou mais de seis horas para ser extinto (2) e destruiu cerca de 80% do acervo de mais de 20 milhões de itens da mais antiga instituição científica do país (3).
O desastre do Museu Nacional foi uma daquelas tragédias anunciadas. Desprezado pelo poder público por décadas (o último Presidente do Brasil a visitar a instituição antes do incêndio foi Juscelino Kubitschek), o museu vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro vinha passando por seguidos cortes orçamentários e apresentava visíveis danos estruturais (2, 4). No ano do incêndio, ironicamente também o aniversário de 200 anos da instituição, o repasse recebido foi de ridículos 71 mil reais (5)! Após sistemáticos cortes de verbas destinadas à pesquisa e educação, o então presidente da República Michel Temer lamentou o ocorrido em um tweet (6).
Tive o privilégio de conhecer o Museu Nacional em 2017, em uma disciplina sobre divulgação científica em museus na pós-graduação. Foi amor à primeira vista! Fiquei encantada com as coleções, a arquitetura, o jardim e a atmosfera boa do lugar – pessoas de todas as idades se divertindo ao aprenderem algo novo! O Museu rapidamente conquistou um lugar na minha lista de favoritos – o que não é pouca coisa para quem já havia visitado o Louvre, o Museu Britânico e outros tantos museus de história natural.
Começando pelo próprio palácio, o Paço de São Cristóvão, na Quinta da Boa Vista, é a sede do Museu Nacional desde 1892. Antes disso, ele foi a residência oficial da Família Real no Brasil (de 1808 a 1889), e foi lá que nossa Declaração de Independência foi assinada. A edificação de três pavimentos passou por diversas reformas ao longo do tempo, tendo adquirido sua característica neoclássica com as reformas feitas por D. Pedro I e D. Pedro II (7, 8).
Em relação ao acervo original, ele era dividido entre as sessões de Paleontologia, Zoologia, Arqueologia, Geologia, Antropologia e Etnobiografia, e entre os itens mais famosos estavam o meteorito de Bendegó, os fósseis do dinossauro Maxakalissaurus topai e da Luzia, o fóssil humano mais antigo do Brasil, e os artefatos greco-romanos da coleção da Imperatriz Teresa Cristina (9, 10). Minhas sessões favoritas eram a de Paleontologia (quem não ama dinossauros?!) e Zoologia. Na sala dos invertebrados havia uma linda cortina de borboletas; as coloridas peças exibidas em vitrines cuidadosamente organizadas. Era fácil notar quanto amor e dedicação estavam por trás da exposição.
Sobrou algo depois do incêndio? Felizmente sim! Apesar das perdas imensuráveis para a humanidade, alguns itens sobreviveram ao fogo, e algumas coleções escaparam porque estavam emprestadas para outras instituições. Coleções privadas foram doadas ao acervo; parcerias público-privadas nacionais e internacionais foram firmadas, e através do projeto Museu Nacional Vive trabalhou-se intensamente para a recuperação do edifício e de partes do acervo (11, 12).
Em 2022 a fachada principal foi completamente restaurada, e em junho de 2025, pela primeira vez após o desastre, o palácio foi aberto ao público para a exposição temporária “Entre Gigantes: uma experiência no Museu Nacional”. Importante ressaltar que de 2018 até hoje as atividades de pesquisa, ensino e extensão do Museu não cessaram. Pesquisadores e educadores utilizaram de espaços cedidos para continuar seu trabalho, e o Festival Museu Nacional Vive de divulgação científica ocorre anualmente nos jardins Paço de São Cristóvão (11).
No vídeo deste link, Caio Gonçalves Dias, Gestor das Novas Exposições, conta cinco curiosidades sobre a restauração do palácio.
Fotos da minha visita em 2017
Abaixo incluí algumas fotos da minha visita em junho de 2017. Junto a elas fica a esperança de que o Museu Nacional possa ser entregue ao brasileiros em breve, e que o poder público não espere tragédias como esta acontecerem para dar o devido valor ao nosso patrimônio e ao desenvolvimento científico.
Referências Bibliográficas
SILVEIRA, D. Incêndio que destruiu o Museu Nacional começou no ar-condicionado do auditório, diz laudo da PF. G1, 04 de abril de 2019.Rio de Janeiro. Disponível online.
PAMPLONA, N., ALEGRETTI, L. Incêndio que destruiu Museu Nacional, no Rio, durou mais de seis horas. Folha de S. Paulo, 3 de setembro de 2018. Cotidiano. Disponível online.
MOURA, B.F. Em reconstrução, Museu Nacional abre espaço para receber escolas. Agência Brasil, 29 de agosto de 2024. geral. Disponível online.
G1 RIO. Diretor-adjunto do Museu Nacional cita ‘descaso’ de vários governos e que incêndio destruiu tudo. G1, 2 de setembro de 2018. Rio de Janeiro. Disponível online.
RIBEIRO, M., ROCHA, L. Museu Nacional: orçamento cai 77% em relação ao ano passado. Poder 360, 3 de setembro de 2018. Economia. Disponível online.
G1. Incêndio no Museu Nacional: veja a repercussão. G1, 2 de setembro de 2018. Rio de Janeiro. Disponível online.
Paço de São Cristóvão abriga o Museu Nacional. MultiRio, 1 de dezembro de 2016. Disponível online.
Paço de São Cristóvão. Museu Nacional Vive, sem data. Disponível online.
O Museu. Museu Nacional, sem data. Disponível online.
Exposições.Museu Nacional, sem data. Disponível online.
Linha do tempo. Museu Nacional Vive, sem data. Disponível online.
BRASIL, C.I. Museu Nacional recebe doação de mais de mil peças. Agência Brasil, 7 de maio de 2024. Disponível online.


