Sobre a romantização da vida e a inevitabilidade da morte

Texto publicado originalmente em 04/06/2024 na newsletter Mensagem na Garrafa.

Algumas das imagens resultantes de uma busca por "romantizar a vida" no Pinterest.

Se você está presente em alguma rede social, talvez já tenha esbarrado em vídeos da trend de “romantização da vida”, que se tornou bastante popular entre os jovens da Geração Z no auge da pandemia do Covid-19 em 2020, e que continua em alta ainda em 2024. Essa tendência é sobre encontrar beleza nas coisas simples do cotidiano, e vivenciar o momento presente de forma intencional. Mas, tendo ela surgido e se popularizado no ambiente virtual, muitas vezes também é sobre postar um conteúdo de forte apelo estético para feeds cuidadosamente curados, retratando fragmentos de um estilo de vida intangível para grande parte da população.

Confesso que em um primeiro momento vi as publicações dessa tendência com um certo desprezo, por julgá-la superficial e um tanto quanto ingênua. Mas, mergulhando em sua proposta original e considerando o período de sua origem, consigo enxergar alguns paralelos com uma expressão de mais de 2000 anos atrás, muito presente na cultura pop alguns anos atrás, quando eu mesma ainda era jovem (e a internet também)… Vocês se lembram, ou já ouviram a expressão “Carpe diem”? 

Cunhada pelo poeta romano Horácio, a frase em latim faz parte de um trecho de uma de suas Odes (I.11) em que se lê: “carpe diem, quam minimum credula postero,”  – “colhe cada dia, confiando o mínimo possível no amanhã”. O trecho simplificado geralmente é traduzido apenas como “Aproveite o dia”,  versão perpetuada pelo estimado Mr. Keating na película Sociedade dos Poetas Mortos (1989), e que na contemporaneidade teve parte de seu significado esvaziado para justificar escolhas inconsequentes ou legendar fotos de viagens. Entretanto, a ideia original (e que precede até mesmo ao poeta), é de que devemos colher os frutos da vida no dia de hoje, pois o amanhã pode não chegar – afinal, memento mori: lembre-se de que irá morrer.

Memento mori é uma filosofia, prática espiritual e manifestação artística. Embora  possa soar mórbida em um primeiro momento, é um lembrete para que vivamos cada dia com virtude e propósito, e que honremos nossos antepassados. Este tema é encontrado em diversas culturas ancestrais (como a celta, asteca, egípcia), mas tornou-se um gênero por si só na Antiguidade romana, sendo um dos pilares da filosofia estóica. 

No âmbito artístico, motivos comuns do gênero são aqueles que remetem à efemeridade da existência: caveiras, esqueletos, flores murchas, velas derretidas e ampulhetas. Entre os subgêneros mais relevantes estão as pinturas de natureza morta Vanitas (sec. XVII), que condenavam a vã busca por bens materiais em vida (por que acumular riquezas se não levará nada quando morrer?); e a alegoria da Danse Macabre (“dança da Morte”), que une vivos e mortos sem distinção de gênero ou classe social em uma dança coordenada pela Morte personificada. Entre as representações mais conhecidas da Danse Macabre estão o filme O Sétimo Selo (1957), do diretor sueco Ingmar Bergman, que o faz de forma literal; e cena dos coveiros em Hamlet (Ato V, Cena I), como um aceno temático.

Da esquerda para a direita: 1. Johann Andreas Graff. Natureza morta Vanitas. Óleo sobre tela, 1680-1689; 2. Danse macabre em O Sétimo Selo (1957); 3. Eugène Delacroix. Hamlet e Horácio no Cemitério; óleo sobre tela, 1839.

Após essa longa digressão, começo a perceber a trend da romantização da vida como um fruto de seu tempo, e seus adeptos com mais empatia. Afinal, essa geração já nasceu em um planeta vitimado pelo ecocídio, em que epidemias e desastres ambientais serão cada vez mais frequentes; e com disparidades econômicas tão profundas e naturalizadas por um verniz meritocrático neoliberal que, como dito pela escritora Conceição Evaristo, é mais fácil imaginar o fim do mundo que o fim do capitalismo. É difícil sonhar com um futuro quando parece que ele não chegará. E é difícil sonhar alto quando sonhos custam caro. Penso que a romantização da vida é uma versão mais conformada com nossa impotência diante da realidade apocalíptica do que suas filosofias predecessoras. 

Quanto ao compartilhamento dessas experiências em redes sociais, não vejo um problema por si só. Acredito que elas possam sim ser instrumentos de inspiração e expressão artística audiovisual do apreço por pequenos momentos. É claro que seu uso se torna mais intencional quando a pessoa realmente acredita na filosofia por trás da trend. Mas cada um sabe de si, e se alguém o faz somente em busca de engajamento, sinto que está perdendo uma oportunidade de descobrir mais sobre si mesmo.

Concluindo, a reflexão sobre a brevidade da vida e nossa vontade de vivê-la (ou como vivê-la) é um tema inerente à condição humana, expressa em alinhamento com o paradigma cultural vigente. Não é porque nossas angústias estão representadas em um vídeo “aesthetic” do Tik Tok que automaticamente se tornam supérfluas ou infantis. Acredito que conhecimento histórico e politização são importantes para que voltemos a sonhar com um futuro melhor, mas não há mal em dar valor ao que temos aqui e agora.

Espero que o texto de hoje tenha agregado algo 🙂 Aqui vão recomendações das obras citadas, caso seja do seu interesse:

  • Filme: Sociedade dos Poetas Mortos (1989). 

  • Filme: O Sétimo Selo (1958).

  • Peça: Hamlet, de William Shakespeare (~1600). 

Referências bibliográficas

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