Simbolicamente, o outono é minha estação favorita. A palavra outono deriva do latim tempus autumnus, que significa “tempo do ocaso”, que por sua vez pode significar pôr do sol ou, em um sentido figurado, decadência, morte ou fim. Mas o outono também é tempo de amadurecimento e colheita dos frutos, e é especialmente poético que estes dois significados andem juntos. Para mim, a estação carrega uma verdade muito poderosa que encontra ecos em aspectos da natureza, na mitologia e também em nossas histórias pessoais: para seguir em frente, é preciso deixar para trás nossa versão antiga e aprender a crescer através da escuridão.
No outono, em florestas temperadas, as folhas de árvores decíduas amarelam-se até secarem e caírem como uma forma de adaptação ao frio e à redução do tempo de iluminação solar (chamado de fotoperíodo). A ampla superfície de contato das folhas dessas árvores, que durante a primavera e o verão maximizam a fotossíntese e regulam a transpiração do vegetal, tornam-se um risco à sua sobrevivência no inverno, uma vez que mantê-las representa um grande gasto de energia em um período em que pouca será produzida. Assim, quando o fotoperíodo diminui, a planta começa a consumir os nutrientes das folhas e armazená-los em outras partes, como o tronco e raízes. É esse processo gradual que eventualmente leva à queda das folhas, e permite à árvore sobreviver ao inverno e brotar novamente na primavera. Mas não pense que ela fica inerte nesse período de escassez: suas raízes continuam indo cada vez mais fundo no solo em busca de água e nutrientes.
Árvores decíduas no outono do hemisfério norte (York, Inglaterra). Fotos autorais.
O outono também marca a descida da deusa grega Perséfone ao submundo. Para que se tornasse sua versão mais poderosa, foi preciso encarar a escuridão, mesmo com muito medo e raiva das circunstâncias que a levaram até lá. Pois é nas trevas que as verdades mais desconfortáveis sobre quem somos se revelam, e podemos enfim abraçar tudo o que somos – nossa luz e nossa sombra. No momento de sua chegada ao Hades, Perséfone sequer era mencionada nas histórias, mas ao trilhar seu caminho ascendeu como deusa da Primavera e a temida Rainha dos Mortos.
Em nossas vidas também frequentemente nos encontramos na posição de revisar o estado de nossas relações, profissão ou projetos de vida, e pensar com carinho no que devemos manter e no que devemos deixar para trás. Essas decisões não são fáceis e requerem um bocado de honestidade consigo mesmo. Mas não precisa ser um processo abrupto – suas folhas podem amarelar e cair gradualmente, como as das árvores decíduas. Tampouco precisa ser um processo solitário – até mesmo Perséfone teve auxílio da deusa Hékate para aprender a navegar o submundo.
Da minha parte, gosto de aproveitar a estação para realizar meus próprios rituais de revisão e desapego, começando por uma boa faxina em armários e gavetas. Dessa vez joguei fora remédios e maquiagens vencidas, e sapatos que já se esfarelavam em meus pés. Também me desfiz de muitos recortes de papéis que acumulei ao longo dos anos e organizei minhas gavetas de material de arte, assim abrindo caminhos para novos projetos. Tomei a coragem de pedir ajuda para movimentar umas documentações que estavam negligenciadas há anos – a verdade é que estava com vergonha de expor que não entendi as instruções; e de enfim fazer uma nova avaliação neuropsicológica, embora não esteja pronta para o resultado.
Se agora é hora de abrir mão das folhas, em alguns meses será hora de adentrar a escuridão e aprofundar raízes. Vamos com medo, mas com a esperança de novas florações no futuro.
Referências Bibliográficas
GIBERT, M.T. Trees in autumn: why the leaves fall and what happens to them in Mediterranean forests. CREAF, 30 DE Outubro de 2025. Disponível online.
Museu de Ciências e Tecnologia PUCRS. Estações do ano: o Outono. Disponível online.
Obsidiyana. O caminho de Perséfone. São Paulo, SP: Editora Goya, 2024. 240 p.
Qual é a origem dos nomes das estações do ano? Super Interessante, 29 de agosto de 2018. Disponível online.
Obrigada por sua leitura! 🙂


